O Regime de Iniciação Científica em Fase de Implantação na Universidade São Judas Tadeu

eCCSOBRE O REGIME DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA

Alberto Mesquita Filho
Oberdan Dias da Silva
Edilson Fernandes Loureiro
Pedro Fernando Quezada Duarte

Integração I(3):214-19,1995

I - Considerações Iniciais

O Regime de Iniciação Científica (RIC), em fase de implantação na Universidade São Judas Tadeu, é o resultado de um projeto desenvolvido pelos membros que apresentam este relato, e idealizado durante a fase de planejamento do Centro de Pesquisa (CP) da Universidade São Judas Tadeu (março a dezembro de 1994).

A partir da análise da produção de conhecimentos, pelo pesquisador e pelo cientista, nos dias atuais, quer no Brasil, quer no exterior, verifica-se que ambos desenvolvem seus trabalhos embasados em poucos estudos acadêmicos formais. Em nosso país, este fato agrava-se devido à não existência de uma política científica voltada à realidade nacional [1], seja em nível governamental, seja em nível universitário. Na prática, os bons profissionais, que atuam nessa área, complementam essa deficiência do ensino formal através do auto-didatismo e da experiência acumulada no exercício de suas atividades. Assim, a preparação desses profissionais ocorre normalmente de forma individual e desorganizada, demandando imensuráveis esforços e grande dispêndio de tempo, portanto, muito onerosa em todos os sentidos.

Isso vem ocorrendo devido à inexistência, tanto em nível nacional como internacional, de uma preparação planejada, formalizada e bem estruturada, destinada a formar o pesquisador e o cientista. Pelo menos até o presente, não há informações da existência de algo assim organizado. Ipso facto, a equipe que planejou o CP da USJT questionou-se sobre até onde poderia interferir na tentativa da reversão desse processo, concluindo que a formação de pesquisadores poderia ser extremamente abreviada, e mais: através de um planejamento adequado, desenvolvido e aperfeiçoado cientificamente para esta finalidade, e, adotando uma postura mais racional e menos dispendiosa, seria perfeitamente possível a USJT evoluir na direção da concretização de seus objetivos, não apenas num espaço de tempo muito menor, mas também assegurando um ganho em qualidade na formação de seus pesquisadores, através do investimento no que há em grande profusão em nosso país: o potencial humano.

Cumpre realçar que o RIC é apenas uma etapa de um processo mais extenso destinado a, dentre outros objetivos, instaurar a auto-suficiência da USJT no que concerne à formação de seu corpo de pesquisadores. A esse respeito, convém observar o conteúdo explícito em dois dos dezessete itens de nossa Carta de Intenções [2]:

VII - propiciar os meios para que se formem pesquisadores na USJT e para que estes se sintam num ambiente onde possam se mostrar úteis para a universidade, para a comunidade e para o país.

VIII - propiciar as condições necessárias, no âmbito de sua competência, para o perfeito funcionamento e desenvolvimento do Regime de Iniciação Científica da USJT bem como para a realização de pesquisas vinculadas ao setor de pós-graduação da USJT.

Em complemento a estas finalidades mediatas (formar pesquisadores voltados para a realidade nacional) e imediatas (propiciar, na USJT, a composição de seu próprio corpo de pesquisadores), cumpre ainda destacar o conteúdo do item XVI da nossa Carta de Intenções:

XVI - alimentar os sonhos dos jovens e semear os seus desejos, sem arrancar o medo e a inquietude que fazem a dúvida desafiar a razão em busca do conhecimento.

Para tanto, o Regime de Iniciação Científica deverá, além de outros cuidados, proporcionar conhecimentos, desenvolver habilidades e formar atitudes que capacitem o graduando a:

  • compreender a importância da produção de conhecimentos;
  • internalizar valores da filosofia da ciência;
  • visualizar a evolução da ciência na humanidade;
  • desenvolver uma mentalidade científica na forma do sentir, pensar e agir;
  • utilizar princípios e normas metodológicas na elaboração de trabalhos e pesquisas científicas;
  • atuar em grupos de estudos e pesquisas.

Conforme já comentado, o RIC é apenas uma etapa de um processo mais extenso e, como tal, estará definitivamente instalado somente quando as demais etapas estiverem em plena execução.

II - Terminologia adotada

Para que se entenda o que se segue, utilizaremos a seguinte terminologia:

Iniciante: aluno de graduação, indicado pelo Coordenador de seu curso (3 por curso da USJT em 1995) e aceito pela diretoria de pesquisa. O aluno, quando da indicação, deverá estar cursando o penúltimo ano do respectivo curso, e será designado por Ini1 (iniciante de primeiro ano). Ao ser aprovado para o último ano, passará a ser designado por Ini2 (iniciante de segundo ano).

Instrutor: alunos que concluíram a graduação e o RIC, e que optaram por ingressar no "Regime de Pós-Graduação Vinculado ao CP" (o nome a ser adotado a este regime não foi ainda definido). Os instrutores do RIC serão classificados em Inst1 (instrutor de 1.° ano) e Inst2 (instrutor de 2.° ano).

Preceptor: concluintes dos créditos do "Regime de Pós-Graduação Vinculado ao CP" e escolhidos pela diretoria de pesquisas para coordenar e supervisionar "agrupamentos modulares do RIC" (vide a seguir) por um período não superior a 3 anos. Durante o regime de preceptoria, o preceptor deverá estar preparando sua monografia (pós graduação lacto sensu) e/ou defesa de tese (pós graduação stricto sensu). Uma vez concluído o regime de preceptoria, o preceptor poderá ser promovido a pesquisador do CP desde que indicado pelo diretor de pesquisas e satisfaça as normas a serem fixadas pelo CEPE [3].

Para 1995 a diretoria do CP selecionará alunos já graduados para exercerem as funções de Ini2 (então designados por monitores) e de preceptor (preceptores provisórios). A figura 1 sintetiza a evolução temporal do RIC, bem como dos regimes acoplados (pós-graduação e preceptoria). Seguindo-se a diagonal em negrito, acompanha-se a evolução temporal proposta para o aluno indicado para o RIC em 1995.

ric1

III - Duração e outros dados temporais

O RIC tem a duração de dois anos, inicia-se sempre em fevereiro (em 1995, o início deu-se na segunda quinzena de maio), e é concluído no final de dezembro do segundo ano. Este período é dividido em subperíodos e os alunos do RIC, reunidos em nove agrupamentos, cumprem alternadamente estágios em módulos mensais. Os subperíodos são intercalados pelas seguintes épocas especiais (ee):

  • Fevereiro do primeiro ano: mês de adaptação.
  • Julho do primeiro ano: curso de extensão I.
  • Janeiro do segundo ano: curso de extensão II.
  • Julho do segundo ano: curso de extensão III.
  • Dezembro do segundo ano: período de avaliação final.

A figura 2 resume a distribuição temporal dos módulos a serem observados pelos membros que iniciarem o RIC a partir de 1996 (F = fevereiro, M = março, etc.):

ric2

Para os alunos iniciantes do RIC em 1995 foram previstas as seguintes modificações:

  • Período de adaptação: maio e junho.
  • Quatorze módulos, ao invés de dezoito.

IV - Estrutura do RIC

O Regime está estruturado em 3 (três) tipos de atividades, a saber: Grupos de Estudo, Atividades de Extensão e Atividades Integrativas (figura 3).

  1. ric3Grupos de Estudo: Os grupos de estudo (GE) constituem a unidade estrutural e funcional do Centro de Pesquisa [4], estando definidos em processo à parte. Existem independentemente do RIC, ainda que os membros do RIC tenham que participar da constituição de, pelo menos, um dos grupos de estudo (mínimo de 3 horas semanais). Estes deverão ser criados durante o período de adaptação, (vide item II) segundo normas bem definidas. Os membros do RIC devem também participar ativamente da dinâmica dos demais GE, sendo esta uma das funções definidas como atividades integrativas.
     
  2. Atividades de Extensão: Além dos cursos de extensão citados em III, com programa bem definido e constante de processo à parte, os membros do RIC deverão:

    a) Freqüentar as reuniões do período de adaptação (estas reuniões, via de regra, realizam-se ao final da tarde, antes do início das aulas do período noturno).
    b) Freqüentar com assiduidade a reunião semanal de "Progressos em Ciência e Tecnologia: Ciência ao Cair da Tarde".
    c) Freqüentar e participar ativamente da organização e execução dos simpósios e congressos realizados pelo CP.
    d) Comparecer às reuniões ordinárias e extraordinárias convocadas pelos instrutores, preceptores, diretor de pesquisa e pró-reitor comunitário. Reuniões ordinárias serão criadas se julgadas necessárias pela autoridade competente, comunicando-se tal fato à autoridade imediatamente superior ou, se necessário, ao Conselho de Pesquisas (ConPq). Reuniões extraordinárias deverão ser convocadas com a antecedência definida nas normas gerais do RIC.
    e) Quando as atividades citadas em c e d tiverem horários conflitantes com o curso de graduação, os membros do RIC serão automaticamente dispensados das atividades bastando, para tanto, comprovarem sua freqüência ao curso regular. Demais dispensas estarão a critério do diretor de pesquisa (área científica) e/ou do ConPq.
     
  3. Atividades Integrativas: Sob este rótulo impõe-se a observância, pelos elementos do RIC, da escala de plantões semanais, bem como o cumprimento de uma carga horária de dedicação (mínimo de 4 horas semanais). Neste período de dedicação o membro do RIC deverá estudar e resolver problemas surgidos durante os plantões e/ou apresentados pelos instrutores, pelos preceptores, pelos coordenadores de curso e pelos professores indicados pelo diretor de pesquisa. Para cada problema o aluno deverá preparar um breve relatório contendo: ocorrência, providências tomadas, despachos e retorno e/ou fechamento do processo. Após fechamento, o processo será rubricado por um dos preceptores e arquivado na pasta do aluno até o término do RIC; será utilizado pela equipe de avaliação final. Para efeito de atividades integrativas, os membros do RIC estagiarão em nove módulos mensais como Ini1, e em outros nove módulos como Ini2. Estes módulos são apresentados na figura 4, estando classificados segundo duas versões:

ric4

Versão horizontal: temos aqui cinco tipos de módulo conforme se relacionem à computação (COM), estatística (EST), metodologia do trabalho científico (MTC), filosofia da ciência (FCi) e módulos integrativos vários (VAR). Os instrutores, referidos no item II, quando existentes, responderão por um destes módulos e por período a ser definido em seus respectivos regimes, enquanto os preceptores, em número de cinco, responderão pelos módulos de mesma linha horizontal.

Versão vertical: segundo esta versão, os módulos se relacionam predominantemente a uma das três áreas: ensino, pesquisa e extensão. Com a evolução do regime, a versão vertical será supervisionada por professores, pesquisadores e extensionistas. É através da versão vertical que pretendemos, em futuro próximo, definir a categoria de orientador. A coordenação dos preceptores, não representada na figura, completa a versão vertical.

Os membros do RIC darão plantões (1 hora/semana no máximo) de atendimento à comunidade acadêmica da USJT e, em especial, procurarão, em primeira instância, estudar problemas levantados pelos grupos de estudo; esse trabalho será realizado durante os plantões e/ou durante as reuniões citadas em "atividades de extensão". Os problemas, relacionados a determinada área de atuação modular, serão estudados pelos membros do RIC estagiando no respectivo módulo e/ou solucionados e/ou encaminhados a instâncias superiores (com retorno), durante a carga horária de dedicação a que o aluno deve se submeter. Os alunos poderão transferir entre si, com a concordância das instâncias imediatamente superiores, a responsabilidade pelas tarefas surgidas durante os plantões, desde que a transferência se justifique peranteric5 a análise dos programas modulares.

Para os iniciantes em 1995 estão previstos cinco módulos mensais, em substituição aos nove descritos (figura 5).

V - Discussão

1) A iniciação científica

Do acima exposto, o leitor menos cauteloso poderá inferir que a iniciação científica se inicia no penúltimo ano do curso universitário. Não foi esta a intenção dos idealizadores do projeto. Não devemos confundir iniciação científica com o "regime" proposto e destinado a se constituir numa das etapas necessárias à formação de cientistas. Numa universidade "de fato", a iniciação científica, conforme já comentamos começa a ocorrer logo após o vestibular:

O aluno de 1.° ano, digamos no mês de março, acabou de enfrentar um vestibular e ingressou num sistema de aprendizado bem mais complexo do que aqueles aos quais ele estava acostumado até então. Com um setor de ensino funcionando bem e podendo contar com um setor de pesquisa razoavelmente organizado e mais, se as coordenadorias, os departamentos e os professores estiverem entrosados entre si e com a universidade como um todo, o aluno, em pouco tempo, queira ou não queira, estará sendo preparado para a sua jornada rumo à conquista da sua condição de universitário. E o que isto significa? Significa que ele deixou de ser um simples receptáculo questionador de conhecimentos transmitidos para se transformar num agente cada vez mais ativo de uma comunidade que tem também por missão a produção de conhecimentos. [5]

Conquanto não seja função única e primordial de uma universidade formar pesquisadores, cabe destacar que, com a implantação definitiva de nosso projeto, será sempre possível ao graduando, entre o vestibular e o penúltimo ano de seu curso, evoluir em direção à sua condição de membro do Regime de Iniciação Científica através de sua participação em grupos de estudo, ou de pesquisa, ou de difusão. Em futuro próximo esta participação será pré-requisito para a aceitação de novos membros no RIC.

2) A formação universitária

Como já exposto, o RIC é apenas uma das etapas de um projeto que, devidamente instalado, destinar-se-á a complementar o setor de ensino da USJT no que se refere à formação de universitários, dentro do mais amplo conceito que se possa dar ao termo. Sem dúvida alguma, é também etapa deste processo escorar a pós-graduação. Mas, o que é a pós-graduação? Obviamente não estamos a busca de uma definição, o que o leitor poderá encontrar no artigo de Duch (1995) [6], mas de uma conceituação mais profunda, crítica e abrangente, e também, e por que não, que evoque critérios éticos, morais e legais. Vamos então nos apegar à chamada pós-graduação stricto sensu, posto ser esta a que, segundo Duch, atribui o grau de mestre ou de doutor, requisitos indispensáveis para quem pretende prosseguir na carreira universitária. E, com efeito, a avaliação universitária, que o MEC nos impõe, estriba-se no percentual de docentes que atingiram estes graus. Até aqui, nada estranhável. Mas, o que é a pós-graduação stricto sensu? Ou então, o que deveria ser para que pudéssemos continuar a dizer "Até aqui, nada estranhável."? A nossa constituição, em seu artigo 207, estabelece que:

As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

Seria, então, de se esperar que a pós-graduação stricto sensu estivesse voltada para atividades de ensino e/ou de pesquisa e/ou de extensão ou ¾ e por que não? ¾ às três. E, no entanto, não é isso o que se verifica em nossas melhores universidades. Estas, num flagrante desrespeito à nossa Constituição, e sob a conivência até mesmo intransigente de autoridades governamentais, privilegiam única e exclusivamente a pesquisa, em detrimento das demais atividades universitárias. E, como diz Duch (op. cit.), "os cursos de pós-graduação stricto sensu são cursos específicos para a obtenção do grau de mestre ou de doutor, normalmente voltados para atividade de pesquisa". A título de exemplo, os dois anos que um médico dedica, em regime de tempo integral, ao cumprimento da residência hospitalar, ¾ atividade de extensão que, diga-se de passagem, equivale em aquisição de conhecimentos e maturação universitária a, pelo menos, dez vezes o total dos créditos exigidos pelos nossos melhores centros de pós-graduação, ¾ de nada valem para efeito de carreira docente em nossas "universities". E o que dizer dos nossos verdadeiros docentes? Via de regra, acabam sendo relegados a um segundo plano no ambiente "universitário", a menos que se submetam às regras do jogo fixadas pelos carreiristas em pesquisas.

É esta a "universidade" que não queremos reproduzir na USJT, e é esta a pós-graduação que pretendemos mostrar ao MEC e ao CNE não corresponder aos anseios de nossa população. A pós-graduação não deve formar pesquisadores e sim universitários, dentro do mais amplo conceito que se possa dar ao termo: pesquisadores, professores e extensionistas. De outra forma, o que seria o princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão?

Como se pode prever, nossa luta não será efêmera, e, até que se conclua, é bem possível que tenhamos que nos submeter às regras do jogo. Uma saída provisória seria a utilização da pós-graduação lato sensu, de menor valor que a stricto sensu para efeitos de carreira universitária, visto estar voltada à atualização profissional. Aliás, a residência médica, conquanto realizada em regime de dedicação plena, nada mais é do que uma pós-graduação lato-sensu, se não de fato, pelo menos em desprestígio no meio universitário "legal".

3) O RIC e a multidisciplinaridade

Quando nos propusemos a planejar o Centro de Pesquisa da Universidade São Judas Tadeu, ¾ e ainda hoje, ¾ um dos temas frequentemente em destaque nos meios acadêmicos era a multidisciplinaridade. Este tema foi então por nós encarado sobre três aspectos principais e que, de certa forma, nos induziram a elaborar a estrutura do RIC como acima proposta. E não poderíamos agir de outra forma se quiséssemos ser coerentes com os princípios básicos que estabelecemos em nossa Carta de Intenções, da qual destacamos agora o item VI:

VI - conservar uma estrutura compatível com o estímulo permanente à multidisciplinaridade.

Dentre as várias facetas que o tema comporta, iremos destacar aqui: a) a multidisciplinaridade como um fator individual; b) a multidisciplinaridade como um fator coletivo; c) o instrumental multidisciplinar e comum aos cientistas das várias áreas.

  1. Formação global versus especialização
    A especialização individual é, sem dúvida alguma, um bem coletivo. Imagine-se no interior de um avião e em pleno vôo: Quem melhor para dirigir o avião que não um especialista em pilotagem? Voltemos à terra: Quem melhor para operar uma apendicite que não um cirurgião de aparelho digestivo? Por outro lado, é parte da natureza humana o cultivo da generalização e do conhecimento global dos fatos. Nada impede que um piloto de avião ou um médico possua uma formação global. E, se formos consultar os tratados históricos da humanidade vamos verificar que os melhores profissionais de todos os tempos foram exatamente aqueles que souberam cultivar a generalidade sem desleixar seus afazeres de natureza social. O homem, como um ser individual que é, não é um especialista: a especialização é uma peculiaridade dos animais irracionais como a abelha, o pica-pau, a formiga, etc [7]. Por outro lado, o homem, como ser social que também é, adapta-se a essa sua condição vivencial, especializando-se. E esta especialização será tanto mais profícua, e conseqüentemente trará tanto mais benefícios à coletividade, quanto mais for apoiada numa livre escolha efetuada por um ser que sabe o que quer e o que não quer, e onde, quando e porque, quer ou não quer. O especialista puro e simples não é um ser livre: é um escravo da sociedade, aprisionado em suas próprias limitações; em outras palavras, é um escravo de sua natureza insignificante, conquanto útil.

  2. O trabalho coletivo
    Se por um lado o homem, enquanto ser social, foi obrigado a se especializar, a sociedade, por outro lado, e com grande freqüência, necessita da realização de tarefas que exigem um conhecimento multidisciplinar. Esta é a versão de multidisciplinaridade que, conforme comentamos inicialmente, vive sendo colocada em destaque nos meios acadêmicos. E, com efeito, as tarefas multidisciplinares [8], para que se tornem de execução rápida, econômica, ou mesmo factíveis, necessitam do concurso de vários especialistas; obviamente, de especialistas que se entendam, que se integrem e, portanto, que cultivem, ainda que superficialmente, a generalidade.

  3. Princípios e ferramentas comuns
    Conquanto existam especialidades científicas, existem também princípios e métodos comuns utilizados por todos os cientistas, independentemente da área a que pertençam. A grande maioria dos cientistas, ou não se dão conta da abordagem globalizante dos princípios e ferramentas que usam, ou então desprezam efeitos relacionados e que poderiam auxiliá-los em muito, seja na caracterização de fenômenos analógicos, seja na obtenção de insights (intuição), seja na ordenação de raciocínios indutivos e/ou dedutivos. Via de regra, consideram este cultivo da generalidade uma acintosa evocação à futilidade, um convite ao desperdício de tempo, algo indigno de ser partilhado por cientistas que se prezam e que, como tal, deveria ser deixado aos não tão magnânimos filósofos da ciência. Fizeram exceção a esta regra homens como Newton, Darwin, Maxwell, Freud, Einstein, Marx, Boltzmann, etc. Além dos princípios e métodos comuns a todos os cientistas, existem ainda aqueles comuns a determinadas áreas, em geral não muito bem delimitadas pelos cientistas. Por exemplo, o biólogo que estuda a mensagem transmitida entre abelhas utiliza-se de alguns princípios comuns ao comunicador social, ou ao químico que estuda a afinidade entre elementos químicos, ou ainda ao físico que estuda a mensagem gravitacional compartilhada pelos planetas. Todos eles estão, de alguma forma, estudando informática, no sentido mais amplo e abrangente que possamos dar ao termo. Outras áreas que também gozam desta generalidade multidisciplinar são: a energética, os fenômenos de transporte, a estrutura, etc. Outro biólogo que, por exemplo, estuda fenômenos de transporte em biologia tem muito mais afinidade científica com um físico especialista em mecânica dos fluidos, do que com um seu "colega" especializado, digamos, em fitogeografia.

Voltemos agora à estrutura do RIC As atividades de extensão estão voltadas a propiciar ao iniciante os princípios e ferramentas comuns a todos os cientistas. As atividades integrativas, a complementar esta tarefa, bem como a favorecer contatos inter e transdisciplinares. E os grupos de estudo, a permitir que o candidato opte entre uma especialização precoce ou tardia; ou até mesmo que conserve uma atitude generalizante. Nunca é demais lembrar que o membro do RIC é um aluno que cursa, concomitantemente, um curso de graduação que, por si só, o leva à especialização; como também não é demais lembrar que a complementação de sua formação científica deve se dar na pós-graduação.


  1. MESQUITA FILHO, A., 1995, A Síndrome dos Três i's, Integração I(2):128-32. Voltar
  2. Carta de Intenções do Centro de Pesquisa da USJT, 1995, in Informativo CP, Integração I(1):49-50. Voltar
  3. Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da USJT. Voltar
  4. A rigor, além dos GE, fazem parte também da estrutura do CP os grupos de pesquisa e os grupos de difusão, conforme explicado rapidamente em Integração I(1):65, 1995. Voltar
  5. MESQUITA FILHO, A., 1995, in Perguntas e Debates "Sobre a Integração ensino-pesquisa-extensão", Integração I(1):68. Voltar
  6. DUCH, Fernando Ferrari, 1995, Estrutura Curricular do Ensino Superior, Integração I(1):46-9, 1995. Voltar
  7. A esse respeito, vide a opinião do prof. Wilson Luiz Sanvito, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, comentada no Editorial de Integração I(1):3-4, 1995. Voltar
  8. Neste caso é comum a utilização do termo interdisciplinaridade para enfatizar a importância da integração mais que a do múltiplo conhecimento. Um termo afim é a transdisciplinaridade, que engloba a integração universidade-comunidade. Voltar

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